quarta-feira, 27 de abril de 2011

O peso do barões.

         Sempre amei minha terra, e se um dia tive que sair de lá, fora somente porque fui obrigado a fazê-lo. Estou hoje em Canudos e com a nova vida já me acostumei, fiz amigos e conheci pessoas que sofreram ao deixar a terra assim como eu. Falei com gente de toda parte debaixo do sol, conversei com sertanejos que agora estão todos como eu, numa terra produtora de cachimbo de barroco, no Belo Monte de Antonio Conselheiro.
       Dia desses, cheguei na terra para trabalhar e conheci uma família, que caminhou uns três quatro dias para chegar até aqui, moravam em uma terra não muito longe. Eles me contaram o tanto que as pessoas sofriam com a exploração dos barões, chegava a ser pior do que comigo, que sempre morei na cidade. 
        Disseram-me que o coronel era um grande fazendeiro que usava seu poder para garantir a eleição dos candidatos que apoiava, era usada uma espécie de voto de cabresto, onde o coronel obrigava e impunha a violência aos eleitores que não votavam nos candidatos apoiados por ele, mas que em época de eleição a mesa até que era farta porque a bondade do governo aumentava.
         Voto aberto, e lógico, para a minoria, assim como na cidade. Disseram eles que o coronel utilizava outros "recursos" para conseguir seus objetivos políticos, por exemplo - compra de votos, votos fantasmas, troca de favores, fraudes eleitorais e violência. Além do Coronel, havia o governador, atua sem oposição nas assembléias e é claro o Presidente que conta com o apoio dos deputados federais sendo ocasional a oposição. Eram todos de uma turma só, lhes parecia.
          O povo aqui reza muito. Até eu, que costumava não ter Deus certo, aprendi a ter uma fé grande, porque assim, com uma vida melhor, uma alimentação melhor e uma liberdade quase que plena, fica fácil acreditar em algo maior.
          No entanto ouvi uma conversa de que Antonio andou falando que lutaria o primeiro, segundo e terceiro fogo, mas que entregaria o quarto a bom Jesus. Meus companheiros não entendem do que se trata, pensam ser um devaneio ou apenas ignoram e continuam a vida assim, mas eu desconfio que vem luta por aí. Imaginei que o governo não tardaria a tentar combater-nos. Ainda mais quando li o último jornal antes de partir para Canudos, onde o governo claramente nos chamava de monarquistas e alguns até ousavam dizer, socialistas e comunistas. 
          Não sei se isso convencerá os latifundiários, barões e burgueses, porque o dinheiro parece corromper as pessoas, ou pelo menos a visão destas. Nunca conheci muitos detentores de capital que viessem a entender o que o povo passa. Mas mesmo assim, tentarei explicar, por meio de um simples exemplo que vejo muito por essas terras acontecer. 
         Era hora do almoço e eu conversava com algum de meus companheiros que trabalharam mais cedo em minha companhia, quando lhes perguntei sobre política, monarquia e assuntos relacionados a maioria respondeu que nada entendia sobre isso, mas que ainda tinha esperanças na volta da família real. Não sou um grande sábio, mas de tal inocência passo longe.
         Boa noite, caros amigos, é hora da missa, mais tarde volto a escrever-lhes.




Bibliografia:

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