Confesso que imaginava Canudos como uma espécie de paraíso, principalmente após a longa e cansativa caminhada que eu e todos os outros fizemos para alcançá-lo. Essa ideia ganhava força a cada passo que dávamos, a cada gota de suor que escorria por nosso corpo. Imaginávamos as pessoas incrivelmente felizes, uma bela paisagem, comida, água e principalmente justiça e liberdade.
Não posso deixar de dizer que me decepcionei em primeiro momento. Ao chegar, após um tremendo esforço e força de vontade, me encontrei em um lugar seco, quente, com várias pessoas que pareciam ser castigadas pela terra em que agora viviam. As condições estruturais da terra lá se vincularam à violência máxima dos agentes exteriores para o desenho de relevos estupendos. O regímen torrencial dos climas excessivos, sobrevindo, de súbito, depois das insolações demoradas, e embatendo naqueles pendores, expôs há muito, arrebatando-lhes para longe todos os elementos degradados, as séries mais antigas daqueles últimos rebentos das montanhas: todas as variedades cristalinas, e os quartzitos ásperos, e as filades e calcários, revezando-se ou entrelaçando-se, repontando duramente a cada passo, mal cobertos por uma flora tolhiça — dispondo-se em cenários em que ressalta predominante, o aspecto atormentado das paisagens.
Mas de qualquer maneira, isso não me abalou. Apesar da seca e de as condições não serem tão melhores das que eu possua em meu antigo lar, ali a liberdade fluia como o ar flui em nossos pulmões. As pessoas ali me receberam bem, éramos todos como uma família só, não havia melhores ou piores. Agora, todo o nosso suor renderia em resultados que beneficiariam apenas a nós mesmos. Tudo o que conseguíssemos era para nosso bem estar, não devíamos nada ao governo que sempre sugava o que tínhamos como vermes.
A cada pessoa com que eu conversava, principalmente sobre as ideias de Antônio Conselheiro, era notável que a nossa única intenção era realmente viver em paz, apenas para nós mesmos, sem atrapalhar e nem dever nada a ninguém. Todos confiavam cegamente em Antônio Conselheiro. Mesmo que a nossa vida não fosse incrível ali, havia uma grande fé de que ele era capaz de nos mandar para um lugar melhor após nossa morte. Isso era o que todos acreditavam, era o que ele dizia, e em pouco tempo, em meio a tantos pensamentos positivos e tanta paz, eu percebi que eu já acreditava também.
Bibliografia: Obra Os Sertões
A vida em Canudos pode não ser tão mais fácil do que a vida que levávamos antes, mas um ponto destacado é realmente certo, a liberdade é refrescante, ela acalenta a alma e dá vida ao espírito. Enquanto em diversas outras áreas o povo é oprimido e perde grande parte de seu trabalho prum governo que não se importa com a gente, nós vemos o destino de nosso suor. Além disso, ficamos com o que conseguimos plantar e colher, esse é nosso sustento (nada mais justo). Sofri banstante antes de vir para cá, tenho família e a via passar fome dia após dia. Agora tenho condições de colocar comida na mesa diariamente e não ver mais meus filhos chorando de fome e sim de barriga cheia. A cada novo dia percebo como o governo não se lembra da nossa existencia e quanto mais pessoas eu conheço com semelhantes historias, mais certeza tenho de que o esquecimento não é pontual, ele se estende por grande parte do país. Viva o povo de canudos e viva Antônio Conselheiro, em quem deposito minha fé.
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